17.

Foram 17. O tempo necessário para os primeiros sinais de que tudo estava bem. 17 dias? Não, claro que não. Semanas? Meses? Anos?

Não exagere. Só saiba que 17 é um bom número para lembrar.

Ela foi dormir. Estava cansada demais para me acompanhar naquela noite, já tinha dado todo o seu potencial para ajudar a sua família, e ela estava certa. Eu, no mesmo lugar de sempre, assistindo tudo de longe, como um espectador, vi ela se aproximar novamente. Oi, você pode me ajudar? Ela pediu um pequeno favor, depois de tanto tempo, tanta distância, quando tudo parecia esquecido. Eu acatei, fiz o que me pediu, claro, afinal eu sempre estive disposto a ajudar. Ela agradeceu a ajuda e disse que estava com saudades. Assim, do nada, ela voltou.

Naquele instante eu não sabia o que dizer. É claro que eu também sentia saudades, mas eu deveria dizer? Deveria abrir mão do orgulho, deveria largar o escudo e também dizer o que sentia? Sim, era exatamente o que eu queria. Eu fiz.

“Aqui saudade é o que não falta.”

Ela me tem nas mãos. É ruim ter que admitir, mas acho bom que ela me tenha, quero tê-la por perto. Quero estar ao lado dela. O sentimento é melhor.

“Eu estou evitando definir.” “Quero que defina.”

A saudade é grande, a distância também, ela foi embora, mas é incrível como ainda está aqui. Tão longe e tão perto. Está resolvido.

Em uma música da Ana Carolina, La Critique, eu ouvi a frase “a saudade não é salgada, a saudade é doce”, eu procuro uma melhor definição, algo que diga exatamente o que é sentir, o que é isso. A saudade, o que será? Eu sinto muita saudade, um mar, talvez até um oceano. Tenho saudade do que não volta, daquele dia em que ela visitou minha casa, ou daquele em que eu me espatifei no chão quando a bicicleta quebrou. São saudades estranhas, mas sim, eu sinto.

Lembro de um garoto que tinha entre seis ou sete anos, curioso, inocente, que não sabia nem um terço do que a vida guardava. Ele estava na varanda de sua casa, mexendo com a caixa de um celular de sua mãe, ele com um estilete nas mãos, começou a cortar a caixa e acidentalmente cortou a perna. Sempre quieto e comportado, logo de início o garoto não esboçou sentimento, levantou, com a perna sangrando, guardou a caixa e o estilete e foi ao encontro da mãe. A mãe desesperada, com o irmão caçula no colo, corre atrás de alguma coisa para parar o sangramento e o garoto de idade incerta começa a chorar, não pela dor na perna, mas pelo momento. A lembrança acaba aqui. Por mais que eu tente, todo o esforço para lembrar é tempo perdido, simplesmente não consigo lembrar do que aconteceu depois. A cicatriz está no mesmo lugar, para confirmar a lembrança.

Antes de prosseguir, quero que saiba que não estou triste ou deprimido, na verdade estou preocupado com a semana de provas, mas não consigo me concentrar no papel da sociedade no Direito, só penso nas palavras que escrevo.

Sabe aquele garoto? O que tem a idade incerta? Ele agora com nove anos, na verdade até ás 9h50min da manhã. Aquele dia era seu aniversário, um dia alegre, várias fotos com seu irmão caçula e sua mãe. Fotos divertidas, tiradas pelo namorado dela, um homem que era distante da família, centrado no trabalho. Tinha uma mulher na cozinha, fazendo um bolo, enquanto outra pessoa colocava refrigerantes na geladeira. Um dia especial. A mulher era a avó do garoto, o bolo era de chocolate, ou seria de maracujá? Me falha a memória. Quem é você?

Enfim, voltando… Voltei.

É uma saudade fraca, mas importante. São lembranças do que não volta, mas que deixou marcas. Há também aquela saudade do que está perto, mas não quero falar sobre ela.

O assunto ainda é saudade? Se for, adiciona mais essa no texto e não esquece dele também quando for falar de arrependimento. Conheci um cara, tinha acabado de entrar na adolescência, tinha seus quinze ou dezesseis anos, que seja, ele era metido a rebelde, queria cuidar da própria vida sem que adultos viessem dar “pitecos”. Pois bem, esse cara morava com o pai, tinha muita semelhança com aquele garoto da lembrança anterior, mas tinha os defeitos da adolescência, não vou entrar em detalhes, mas por força maior ele teve que voltar a morar com a mãe dele depois de quase quatro anos longe. O cara tinha entrado no ensino médio, naquela selva de adolescentes, com seus egos e seus maiores defeitos em exposição para todos. Não é muito agradável dizer, mas ele só voltou a morar com sua mãe porque sua avó estava com uma doença grave, terminal, câncer. Ele não fazia ideia da gravidade dos seus atos e muito menos do futuro, não sabia e muito menos se interessava em saber sobre o estado da doença de sua avó, mas ele continuava prestativo como sempre foi com a família. Poupando dos detalhes, seis meses após o cara voltar, a avó falece devido a doença. Foi uma cena forte e ainda é difícil compartilhar, mas eu fiquei abalado com o ocorrido. Aquele garoto que eu desprezo, que eu finjo que não conheci, que eu tento ignorar, sofreu algo que eu não desejo a ninguém. Ele perdeu alguém que o amava. Nunca vi aquele cara chorar tanto, como um bebê que sente fome, como um garoto que se perde dos pais, chorava mesmo sem ter lágrimas, já não tinha voz. São cinco anos, eu nunca mais vi aquele cara, mas ainda tenho constantes notícias dele.

E se nada disso tivesse acontecido? Você é capaz de dizer o que seria diferente? Que falta faria aquela cicatriz na perna ou aquele bolo que não se pode lembrar o sabor? O que seria hoje diferente na vida daquela família que perdeu sua fundadora? Você é capaz de saber? Consegue ao menos imaginar? Eu confesso que já tentei, mas não sei se gostaria que fosse da forma como imagino.

Qual a sua grande lembrança?

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