E se for um sonho?

Olho para uma foto que fica sobre a cama. Sou eu, mas é uma foto de como eu costumava ser. E quase não me reconheço. Estou sonhando mas meus olhos estão bem abertos, parece que perdi o controle que um dia pensei ter. Viro para o outro lado e encaro a parede, afinal o que eu tanto tenho para pensar? O que está acontecendo? Há dez anos tudo isso era indiferente.

Hoje acredito que vi aquela minha amiga esperando o coletivo na mesma praça que eu estava antes de acordar no meu quarto, ela estava diferente, opiniões e vestimentas que contradiziam a mesma pessoa de alguns anos atrás. Foi bonito e curioso, pois tive vontade de conhece-la em seu novo mundo. Nos desencontramos, nenhum de nós avistou o olhar do outro, ela entrou no coletivo e eu continuei a caminhar. A vida, como costumam dizer, é uma caixinha de surpresas, quando pensamos saber tudo algo acontece para nos provar o contrário.

Voltando ao quarto, ele continua branco, retangular e bagunçado. Tenho roupas pelo chão e um sapato perto da porta de madeira. Não faço ideia de onde esteja o outro sapato para formar o par, parei de procurar, comecei a ler outro livro e não terminei. O que estou fazendo? É a pergunta maior, a que grita mais alto dentro da minha cabeça. Isso tudo vai valer a pena? Quando eu posso acordar? Percebo que durmo, no modo figurado, durmo por estar parado, por não mover uma pedra para construir o tal castelo ou moldar o caminho. Talvez eu não precise moldar ou construir, apenas caminhar, devagar e atento. É confuso, quando penso nisso adormeço, meu corpo dói, eu não tenho forças para levantar, quando fecho os olhos já estou na escuridão.

Acordo, o celular está tocando, não tenho certeza se é o despertador ou uma ligação, não consigo lembrar. A luz do sol é tão forte que as cortinas escuras possuem pequenos pontos luminosos, como estrelas no escuro do céu, percebo que estou mais uma vez atrasado e sair de casa nesse horário é puro tempo perdido, chegarei nos últimos minutos, decido ficar mais uma vez. Levanto, o corpo ainda dói, meu maior desejo é tomar aquela xicara com café enquanto leio as notícias no tablet e realizo, é a primeira coisa que faço. O café não demora, a rotina condiciona a pessoa a ter uma vida metódica. Em poucos minutos o pão já está com uma fatia de queijo no meio, um copo com leite está servido enquanto o café esfria na xícara. Isso foi incomum. O celular toca, eu ignoro outra vez. Quem ligaria às 7h da manhã?

Três. Quatro. Cinco. Perco a conta. Cadê a motivação? Tantas perguntas.

“- Por que não me atende?”

Olívia abre a porta desesperada, como se eu estivesse desaparecido, sei que está aborrecida pois ela diz meu nome, ela nunca diz meu nome quando está tudo bem. E não está, realmente não está. Mas o que eu quero dizer realmente não importa. Já faz um tempo desde que a Olívia apareceu para me fazer companhia, ela é quem esteve comigo todo esse tempo, acompanhou o trajeto e dizia quando eu parecia errar o caminho. Qual é o seu talento? O que mais gosta de fazer? As pessoas que convivem com você te entende? Ao menos tentam? Enfim, são questões importantes para quem prioriza as perguntas.

Sempre dou um jeito de mudar a situação. O que poderia se tornar uma grande discussão sem fim com Olívia acabou virando enrolação, no fim ela entende e fica por isso mesmo. Já faz um tempo desde a última declaração aqui e, acredite, não era sobre uma única pessoa, na verdade se torna óbvio depois. Agora deixa assim, já aconteceu. É confuso? Sim, concordo. Mas quem é Olívia e o que fez ela surgir do nada? Mais questões. Olívia não existe, mas sua personalidade é real. Ela prefere continuar anônima, então não pergunte.

Eu tenho mais algumas coisas para incluir no questionário. No final das contas, quantas pessoas realmente nos conhecem? Conhecem nossa rotina: onde vamos, com quem nos encontramos, o que fazemos. Se alguma coisa acontecesse, se nós desaparecêssemos repentinamente, quem saberia onde procurar, a quem perguntar, para quem ligar? Amigos – até os que você considera próximos, aqueles com quem sente uma ligação forte – provavelmente não saberia. Familiares, provavelmente menos ainda.

Talvez eu já esteja desaparecendo e você não percebeu…

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… Então eu acordei.

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