Reflexões sobre as crianças, a família e o futuro.

Daqui do meu quarto escuto aquelas crianças brincando lá fora na rua, isso me incomoda de uma maneira diferente. As meninas correm e se escondem, gritam quando são encontradas pelo garoto que ficou contando até cinquenta na porta da casa de um dos vizinhos, isso me faz pensar: será que esse menino e as garotas imaginam como serão suas vidas em dez anos? Será que existe essa preocupação na cabeça infantil dessas crianças? Eu acredito que não. Eu nunca pensei nisso quando tinha a idade delas, eu queria apenas brincar, exatamente como elas estão agora. Sem preocupações, sem problemas sérios de adultos.

Quem é que compra a comida? Quem é que te matriculou na escola? Quem é que compra suas roupas? Elas não pensam nisso.

Pareço deprimido? É que na verdade realmente estou. Há um tempo venho pensando sobre isso, sobre como o tempo passa rápido quando crescemos, sobre como não conseguimos mais fazer nada do que queríamos.  Eu queria poder voltar no tempo. Eu queria poder prevenir aquele garoto de dez anos da dor que ele sentiria cinco anos depois, queria poder ajudar nas coisas básicas, queria que ele ficasse preparado para as mudanças que viriam a acontecer, queria ter a chance de distribuir conselhos para ele, mesmo que não soubesse que eu seria ele em nove anos.

Quanto tempo passou? Muito, eu lhe respondo. Dezenove anos. A primeira fase da sua vida passou e você aproveitou bem, não tem mais volta. E aquelas fotografias? Não consigo lembrar aqueles dias, mas vejo nas fotos uma criança que sei que sou eu. Reconheço-me e não lembro as datas e nem do que foi dito. Eu sei que eu estava lá, está registrado. É estranho, complicado, interessante e tudo mais.

Tudo o que sou está registrado, arquivado e catalogado. Não tenho acesso direto, as lembranças aparecem quando querem, não possuo o controle. Na verdade, sinto que preciso lembrar tudo, mas às vezes quero esquecer e desistir. Não sei superar, não sei ser assim. Agora volto para o início, para aquelas crianças brincando na rua, consigo ver seus destinos em oito anos, posso deduzir. Seus irmãos e irmãs brincavam comigo quando eu tinha as suas idades. Hoje eu estou estudando em uma boa faculdade, em um bom curso e há um ano fiz um estágio que me direcionou para um futuro promissor, as crianças que brincavam comigo na rua por outro lado hoje estão paradas na mesma situação que se encontravam há seis anos, não cresceram. Continuam com suas vidas debochadas e invejosas, procurando defeito na vida alheia, assim como estou fazendo neste momento, procurando mostrar aos outros que estão bem, quando na verdade estão estagnadas em uma vida de pobreza de espírito, sem conhecimento e sem interesse de mudar.

Uma das meninas que brincavam comigo está com seu terceiro filho, teve o primeiro com quinze anos, outros garotos e garotas que conheci quando fui criança estão convivendo com pessoas ruins, que trabalham na ilegalidade. Acredito que tudo isso foi resultado da criação dada pelos pais e infelizmente receio que é este o futuro dessas crianças que brincam na rua hoje. Seus pais recebem uma bolsa do governo para ajudar nas despesas da casa, mas usam o dinheiro com cervejas todos os fins de semana enquanto as crianças ficam brincando seminuas nas pontes e correndo o risco de perderem a vida quando correm em direção à rua movimentada com suas bicicletas enferrujadas, minha mãe também recebia a mesma bolsa e gastava com cadernos e livros para meu irmão e eu. Hoje conseguimos ver a força que a criação dos pais exerce nas atitudes dos filhos.

É um desabafo? Seria um comentário? Ou um argumento? Não sei, o título diz que é uma reflexão. Ouvir a gritaria desnecessária dessas crianças na rua me fez perceber que já não há tempo, que elas estão aproveitando suas vidas enquanto estou sentado no canto escuro do meu quarto digitando textos sobre o que penso. Será que meu irmão também fará isso quando chegar aos dezenove? Eu espero que não, quero que ele viva, que se divirta, que não se sinta preso mesmo estando livre. O que é ser livre? É o que eu quero que meu irmão seja. Ele está chegando aos treze anos e o tempo também acabará para ele. Ainda é cedo, quem lê isso imagina que tenho vivido muito. Acredite ainda não tenho vinte anos. Não imagino o que os próximos vinte ou trinta ou quarenta anos me guardam. Tudo depende das minhas escolhas. Penso novamente naquelas crianças que estavam brincando na rua, o que será que o futuro mostrará a elas? Será que ficarão bem?

Às vezes sou egoísta e arrogante, todo mundo é não há como negar. Acho que o que eu escrevi acima foi arrogante, os comentários que fiz sobre o que aconteceu com as crianças que brincavam comigo foram ridiculos, eu não costumo ser assim, mas foram essas as palavras que vieram quando vi no que elas se tornaram. Fui egoísta em relação ao meu irmão, eu quero o melhor para ele. Quem é que não quer o melhor para a sua família?

Minha vontade é continuar a dissertar sobre a influência dos pais no crescimento dos filhos, sobre as crianças brincando e sobre as lembranças, mas é melhor que eu não exceda os limites e transforme isto em uma reflexão mais entediante do que já é. Também não quero repetir o que eu disse acima, só quero deixar registrado que hoje pensei sobre minha infância e que no começo eu estava triste, mas após os primeiros parágrafos me senti muito mais leve e satisfeito comigo mesmo.

Escrever é uma boa terapia, todos deveriam tentar. Au Revoir. 

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