Fotografias.

O fim de tarde chegava, ele estava no mesmo lugar de sempre. Carregava um livro velho em suas mãos que mais parecia um álbum de fotografias. Ele estava cansado daquele lugar, mas algo o prendia ali. Decidiu continuar lá então, em uma cadeira de balanço, abriu o livro e folheou as primeiras páginas. Começou a lembrar de todas as pessoas que ele havia conhecido, todas as pessoas que se foram, todas as que ficaram e as que diziam ama-lo e em tão pouco tempo o deixaram ali, sozinho. Pensou em quantas vezes disse “eu te amo” quando na realidade nem sabia se realmente era amor. Decidiu procurar uma distração.
Ele sabia que apesar do que as pessoas dizem, ele não conseguiria se distrair com aquele livro. Foi fazer então um pouco de café, mas o café tinha acabado. Não encontrou biscoitos, nem pão, nem algo que pudesse mudar o que ele estava sentindo naquele momento. Ele lembrou que tinha alguém com quem ele podia contar. Foi na casa de uma amiga, mas não havia ninguém lá. Ele já não sabia o que fazer. Após inúmeras tentativas a amiga atende ao telefone e diz que não podia ficar com ele agora, pois estava viajando. Ele se perguntava. “Por que não sabia que ela não estaria aqui? Por que eu me distanciei de quem me faz bem? Quando eu me tornei tão arrogante ao pensar que ela tinha obrigação de me avisar aonde iria? EU NÃO SOU O CENTRO DO MUNDO, POR MAIS QUE EU QUEIRA! Cada um tem a sua própria vida, independente da minha”. Às vezes ele surtava com a solidão, mas só às vezes. Ele voltou a si. Uma qualidade notável era que não importava o seu nível de tristeza, ele nunca tratava as pessoas mal por isso. Guardava para si, mesmo não sendo benéfico a ele.
Voltou para casa. Havia comprado o café, os biscoitos e o pão, mas já passava das 18h30 e ele não podia perder mais o sono. Não encontrou nada interessante na televisão, apesar de que em uma época ele não perderia por nada seus seriados de domingo à noite. Pegou aquele livro novamente e o guardou. Sua biblioteca continuava incompleta, mas os livros mais importantes ficaram lá, ela conseguiu levar alguns, mas ele não brigou por isso. Eles haviam se entendido.
Saiu da casa novamente, dessa vez para colocar a cadeira para dentro e trancar o portão. Encontrou um envelope na caixa de correio, sem remetente, apenas o seu nome escrito com uma letra que ele conhecia. Voltou para a casa novamente, trancou a porta e abriu o envelope. Eram fotografias. Uma lágrima escorreu de seus olhos. Comeu alguns biscoitos e voltou à biblioteca, pegou aquele livro velho e guardou as fotos lá, mas não devolveu o livro para o seu lugar, levou para o quarto, organizou as novas fotografias em uma página e tentou pensar em algo diferente. Sem encontrar distrações, decidiu ler aquele livro, voltou para a sua cadeira, desta vez na sala de estar, entre as páginas havia várias fotografias. Ele já se sentia melhor, não estava sofrendo, ele sabia que tudo estava bem.
Chorou um pouco. As fotos traziam grandes lembranças e ilustravam o livro, era algo legal de se ver. Não terminou de ler, mas não precisou, pois ele havia vivido aquilo. Adormeceu e sonhou com aquelas pessoas que ele achava importante. Acordou assustado, a campainha tocava, ele estava recebendo uma visita. Sua filha estava na porta, ela havia saído cedo do trabalho e decidiu passar o restante do fim de semana com o seu pai. Ainda eram 21h, ele já não conseguia dormir, decidiu aproveitar a visita de sua filha. Abriu uma exceção, fez café, preparou um bom recheio para o pão e sentou ao lado da filha enquanto o lanche não estava pronto. Começou a contar sobre o seu dia, mostrou a ela as fotografias e ela ficou feliz, pois seu pai nunca havia deixado ninguém ver aquelas imagens. Ele decidiu dar o livro para a filha, disse que sua vida estava ali e que naquelas páginas ela saberia o motivo de ele não estar junto de sua mãe. Ela se emocionou e agradeceu.

O café ficou pronto, o pão esquentou demais, quase torrou, mas eles não se importaram. A filha dormiu na sala e ele não conseguiu voltar ao sono. Quando finalmente adormeceu, viu seus pais, dizendo o quão orgulhosos eram por ter um filho tão bom. Junto de seus pais, sua ex esposa, sua filha e seus melhores amigos apareceram, todos estavam felizes e ele já não queria mais acordar, ele não se sentia mais só.
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