Ultimato (This is where I leave you)

E definitivamente sei os terríveis efeitos de permanecer em vigília.” A.N.

Há quanto tempo eu durmo? Não importa, eu não vou esquecer. Pode pensar e criar teorias, não é uma cópia, não é original também. É uma união instável. Um beco sem saída.
Eu vejo a saída, mas você não quer ir até lá. Estou sentado diante da porta, observando o trânsito lá fora através do vidro. O cheiro de detergente e água sanitária ainda está presente, me fazendo lembrar do trabalho que tive para estar aqui. Você provavelmente não sabe, ou talvez saiba pouco, sobre como tive que me livrar de você. Sim, a palavra livrar é forte, quase impiedosa, eu nem deveria estar escrevendo.
O tempo, como é de se esperar, estava passando rápido, praticamente já não ouvia mais a sua voz, não lembrava o seu rosto e o seu cheiro. Você ainda estava ali, mesmo que secretamente, discretamente, desaparecendo. Então eu conheci Mary. Ela me chamou da mesma forma que você fez e a ilusão de que era diferente foi tomando conta. Logo eu já estava envolvido, me entregando e caindo. O problema aliás, sempre foi esse. Cair era quase que inevitável, se entregar era uma promessa cumprida. Mas quebrei meu dilema, Alice surgiu e me fez acordar. Vi você no olhar da Mary e isso me atormentou. Eu não conseguia viver comigo mesmo e a cada dia temia pelos sentimentos, os meus e delas. Um cretino, você diz, um idiota, babaca. É, eu sei. Também digo isso hoje, mas naquele mês era confuso, as perguntas não paravam em minha cabeça. Você apareceu novamente e aquela vontade de te provar merecedor me fez estragar mais ainda o que já estava comprometido. Mary foi embora, não podia mais prolongar algo que terminaria ruim de qualquer forma. Não havia saída. Alguém ficaria ferido.
Qual a motivação para isso? Esse negócio de mostrar que merece é tão infantil, tão idiota. Ah, eu não sei o que pensava naquele momento. Após inúmeras tentativas e desentendimentos, percebi que você não seria feliz comigo e você também foi embora.
Alice veio como um sonífero, me impedindo de ficar acordado noites adentro. Um ano. Depois disso você, Mary e Alice já não eram realidade. Um passado que deixa marcas. Imagino o que você sentiu quando foi embora, imagino o que Mary sentiu e acima de tudo o que Alice sentiu. Ficar aqui, pela metade, já não é opção. “Tudo bem” é o que elas diriam? Não. Não é suficiente. Nunca será e isso é normal. Estou saindo da órbita desse planeta, deixando minha história pra trás, registrada em um livro pela metade, vivendo como um humano qualquer, sem grandes expectativas, com o pé no chão, com diziam. Dentro de toda pessoa há uma história, um dilema, um ultimato. E cada um teve que dar o seu.

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17.

Foram 17. O tempo necessário para os primeiros sinais de que tudo estava bem. 17 dias? Não, claro que não. Semanas? Meses? Anos?

Não exagere. Só saiba que 17 é um bom número para lembrar.

Ela foi dormir. Estava cansada demais para me acompanhar naquela noite, já tinha dado todo o seu potencial para ajudar a sua família, e ela estava certa. Eu, no mesmo lugar de sempre, assistindo tudo de longe, como um espectador, vi ela se aproximar novamente. Oi, você pode me ajudar? Ela pediu um pequeno favor, depois de tanto tempo, tanta distância, quando tudo parecia esquecido. Eu acatei, fiz o que me pediu, claro, afinal eu sempre estive disposto a ajudar. Ela agradeceu a ajuda e disse que estava com saudades. Assim, do nada, ela voltou.

Naquele instante eu não sabia o que dizer. É claro que eu também sentia saudades, mas eu deveria dizer? Deveria abrir mão do orgulho, deveria largar o escudo e também dizer o que sentia? Sim, era exatamente o que eu queria. Eu fiz.

“Aqui saudade é o que não falta.”

Ela me tem nas mãos. É ruim ter que admitir, mas acho bom que ela me tenha, quero tê-la por perto. Quero estar ao lado dela. O sentimento é melhor.

“Eu estou evitando definir.” “Quero que defina.”

A saudade é grande, a distância também, ela foi embora, mas é incrível como ainda está aqui. Tão longe e tão perto. Está resolvido.

Em uma música da Ana Carolina, La Critique, eu ouvi a frase “a saudade não é salgada, a saudade é doce”, eu procuro uma melhor definição, algo que diga exatamente o que é sentir, o que é isso. A saudade, o que será? Eu sinto muita saudade, um mar, talvez até um oceano. Tenho saudade do que não volta, daquele dia em que ela visitou minha casa, ou daquele em que eu me espatifei no chão quando a bicicleta quebrou. São saudades estranhas, mas sim, eu sinto.

Lembro de um garoto que tinha entre seis ou sete anos, curioso, inocente, que não sabia nem um terço do que a vida guardava. Ele estava na varanda de sua casa, mexendo com a caixa de um celular de sua mãe, ele com um estilete nas mãos, começou a cortar a caixa e acidentalmente cortou a perna. Sempre quieto e comportado, logo de início o garoto não esboçou sentimento, levantou, com a perna sangrando, guardou a caixa e o estilete e foi ao encontro da mãe. A mãe desesperada, com o irmão caçula no colo, corre atrás de alguma coisa para parar o sangramento e o garoto de idade incerta começa a chorar, não pela dor na perna, mas pelo momento. A lembrança acaba aqui. Por mais que eu tente, todo o esforço para lembrar é tempo perdido, simplesmente não consigo lembrar do que aconteceu depois. A cicatriz está no mesmo lugar, para confirmar a lembrança.

Antes de prosseguir, quero que saiba que não estou triste ou deprimido, na verdade estou preocupado com a semana de provas, mas não consigo me concentrar no papel da sociedade no Direito, só penso nas palavras que escrevo.

Sabe aquele garoto? O que tem a idade incerta? Ele agora com nove anos, na verdade até ás 9h50min da manhã. Aquele dia era seu aniversário, um dia alegre, várias fotos com seu irmão caçula e sua mãe. Fotos divertidas, tiradas pelo namorado dela, um homem que era distante da família, centrado no trabalho. Tinha uma mulher na cozinha, fazendo um bolo, enquanto outra pessoa colocava refrigerantes na geladeira. Um dia especial. A mulher era a avó do garoto, o bolo era de chocolate, ou seria de maracujá? Me falha a memória. Quem é você?

Enfim, voltando… Voltei.

É uma saudade fraca, mas importante. São lembranças do que não volta, mas que deixou marcas. Há também aquela saudade do que está perto, mas não quero falar sobre ela.

O assunto ainda é saudade? Se for, adiciona mais essa no texto e não esquece dele também quando for falar de arrependimento. Conheci um cara, tinha acabado de entrar na adolescência, tinha seus quinze ou dezesseis anos, que seja, ele era metido a rebelde, queria cuidar da própria vida sem que adultos viessem dar “pitecos”. Pois bem, esse cara morava com o pai, tinha muita semelhança com aquele garoto da lembrança anterior, mas tinha os defeitos da adolescência, não vou entrar em detalhes, mas por força maior ele teve que voltar a morar com a mãe dele depois de quase quatro anos longe. O cara tinha entrado no ensino médio, naquela selva de adolescentes, com seus egos e seus maiores defeitos em exposição para todos. Não é muito agradável dizer, mas ele só voltou a morar com sua mãe porque sua avó estava com uma doença grave, terminal, câncer. Ele não fazia ideia da gravidade dos seus atos e muito menos do futuro, não sabia e muito menos se interessava em saber sobre o estado da doença de sua avó, mas ele continuava prestativo como sempre foi com a família. Poupando dos detalhes, seis meses após o cara voltar, a avó falece devido a doença. Foi uma cena forte e ainda é difícil compartilhar, mas eu fiquei abalado com o ocorrido. Aquele garoto que eu desprezo, que eu finjo que não conheci, que eu tento ignorar, sofreu algo que eu não desejo a ninguém. Ele perdeu alguém que o amava. Nunca vi aquele cara chorar tanto, como um bebê que sente fome, como um garoto que se perde dos pais, chorava mesmo sem ter lágrimas, já não tinha voz. São cinco anos, eu nunca mais vi aquele cara, mas ainda tenho constantes notícias dele.

E se nada disso tivesse acontecido? Você é capaz de dizer o que seria diferente? Que falta faria aquela cicatriz na perna ou aquele bolo que não se pode lembrar o sabor? O que seria hoje diferente na vida daquela família que perdeu sua fundadora? Você é capaz de saber? Consegue ao menos imaginar? Eu confesso que já tentei, mas não sei se gostaria que fosse da forma como imagino.

Qual a sua grande lembrança?

E se for um sonho?

Olho para uma foto que fica sobre a cama. Sou eu, mas é uma foto de como eu costumava ser. E quase não me reconheço. Estou sonhando mas meus olhos estão bem abertos, parece que perdi o controle que um dia pensei ter. Viro para o outro lado e encaro a parede, afinal o que eu tanto tenho para pensar? O que está acontecendo? Há dez anos tudo isso era indiferente.

Hoje acredito que vi aquela minha amiga esperando o coletivo na mesma praça que eu estava antes de acordar no meu quarto, ela estava diferente, opiniões e vestimentas que contradiziam a mesma pessoa de alguns anos atrás. Foi bonito e curioso, pois tive vontade de conhece-la em seu novo mundo. Nos desencontramos, nenhum de nós avistou o olhar do outro, ela entrou no coletivo e eu continuei a caminhar. A vida, como costumam dizer, é uma caixinha de surpresas, quando pensamos saber tudo algo acontece para nos provar o contrário.

Voltando ao quarto, ele continua branco, retangular e bagunçado. Tenho roupas pelo chão e um sapato perto da porta de madeira. Não faço ideia de onde esteja o outro sapato para formar o par, parei de procurar, comecei a ler outro livro e não terminei. O que estou fazendo? É a pergunta maior, a que grita mais alto dentro da minha cabeça. Isso tudo vai valer a pena? Quando eu posso acordar? Percebo que durmo, no modo figurado, durmo por estar parado, por não mover uma pedra para construir o tal castelo ou moldar o caminho. Talvez eu não precise moldar ou construir, apenas caminhar, devagar e atento. É confuso, quando penso nisso adormeço, meu corpo dói, eu não tenho forças para levantar, quando fecho os olhos já estou na escuridão.

Acordo, o celular está tocando, não tenho certeza se é o despertador ou uma ligação, não consigo lembrar. A luz do sol é tão forte que as cortinas escuras possuem pequenos pontos luminosos, como estrelas no escuro do céu, percebo que estou mais uma vez atrasado e sair de casa nesse horário é puro tempo perdido, chegarei nos últimos minutos, decido ficar mais uma vez. Levanto, o corpo ainda dói, meu maior desejo é tomar aquela xicara com café enquanto leio as notícias no tablet e realizo, é a primeira coisa que faço. O café não demora, a rotina condiciona a pessoa a ter uma vida metódica. Em poucos minutos o pão já está com uma fatia de queijo no meio, um copo com leite está servido enquanto o café esfria na xícara. Isso foi incomum. O celular toca, eu ignoro outra vez. Quem ligaria às 7h da manhã?

Três. Quatro. Cinco. Perco a conta. Cadê a motivação? Tantas perguntas.

“- Por que não me atende?”

Olívia abre a porta desesperada, como se eu estivesse desaparecido, sei que está aborrecida pois ela diz meu nome, ela nunca diz meu nome quando está tudo bem. E não está, realmente não está. Mas o que eu quero dizer realmente não importa. Já faz um tempo desde que a Olívia apareceu para me fazer companhia, ela é quem esteve comigo todo esse tempo, acompanhou o trajeto e dizia quando eu parecia errar o caminho. Qual é o seu talento? O que mais gosta de fazer? As pessoas que convivem com você te entende? Ao menos tentam? Enfim, são questões importantes para quem prioriza as perguntas.

Sempre dou um jeito de mudar a situação. O que poderia se tornar uma grande discussão sem fim com Olívia acabou virando enrolação, no fim ela entende e fica por isso mesmo. Já faz um tempo desde a última declaração aqui e, acredite, não era sobre uma única pessoa, na verdade se torna óbvio depois. Agora deixa assim, já aconteceu. É confuso? Sim, concordo. Mas quem é Olívia e o que fez ela surgir do nada? Mais questões. Olívia não existe, mas sua personalidade é real. Ela prefere continuar anônima, então não pergunte.

Eu tenho mais algumas coisas para incluir no questionário. No final das contas, quantas pessoas realmente nos conhecem? Conhecem nossa rotina: onde vamos, com quem nos encontramos, o que fazemos. Se alguma coisa acontecesse, se nós desaparecêssemos repentinamente, quem saberia onde procurar, a quem perguntar, para quem ligar? Amigos – até os que você considera próximos, aqueles com quem sente uma ligação forte – provavelmente não saberia. Familiares, provavelmente menos ainda.

Talvez eu já esteja desaparecendo e você não percebeu…

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… Então eu acordei.

Tempo.

Eu sinto falta das nossas conversas, antes éramos muito mais próximos. Conversávamos sobre outros amigos, nossas músicas e filmes favoritos, sobre o futuro e o passado, sobre o agora. Conversávamos sobre nós. Fico triste às vezes por perceber que já não temos isso, que nossas vidas tornaram-se tão independentes e os dias foram nos separando, mesmo que você ainda esteja apenas há cinco ou seis quilômetros de distância de mim. Já não sei sobre o seu dia, já não ligo e nem mando mensagens, assim como você também não faz. Eu tenho tempo, mas não tenho condições. E você, minha amiga, parece não ter o tempo, há outras prioridades hoje e eu entendo, já não faz tanta diferença. Seguimos vidas diferentes e realmente podemos esperar mudanças maiores. Sim, é sempre você e por um bom tempo ainda será. Não tenho vontade alguma de mudar isso, pois tudo o que fizemos juntos está comigo em memórias, guardadas no armário, naquela gaveta que eu não abro. Deixo lá a nossa primeira estória, enquanto registro aqui, para quem quiser ver, que não esqueço. Enquanto guardo, por querer, vivo as mudanças, sem saber.
Acho que agora entendo, mas já faz muito tempo. Não posso mudar isso, mas está tudo bem. Eu estou bem. Você está também.

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Você está atrasado.

 

Está na hora de você começar a fazer as coisas certas. Na verdade, já passou da hora. Você está atrasado. Comece tudo de novo e tente não cometer os mesmos erros. Se nada mudar, esqueça. O importante é que desta vez você estará fazendo o certo, estará escutando você mesmo, você pelo menos tentou. Se errar, não colocará a culpa em ninguém, pois foi você que errou. Comece a seguir os conselhos que você deu para os seus amigos namorados, você sempre aconselha, mas nunca seguiu seus próprios conselhos. Você está atrasado, tudo mudou, procure se ajustar a essa realidade. Já se passaram seis meses, já se passou um ano, na verdade já vai completar cinco anos e você continua com a mesma desculpa. Pare de pedir desculpas! Argumente! Seja mais extrovertido! Ninguém quer saber se você não está bem, as pessoas já possuem seus próprios problemas para ficar pensando exclusivamente em você. Você está atrasado, você não sabe disso, ou talvez saiba, mas finge não saber. Você bloqueia suas lembranças e quando elas voltam você não aguenta, chora, toma decisões precipitadas, se humilha. Qual o motivo disso? O que você ganha sofrendo por lembranças? O que você ganha sendo essa pessoa que só se lamenta e não busca mudanças. O que você ganha?

 

Você está atrasado, no prejuízo, correndo atrás do que não deve, pare com isso. Nove anos já passou, cinco anos já passou, um ano já passou, seis meses também. Aprenda a superar isso, ninguém vai esperar por você.

 

Se ajuste, você está atrasado.